Os 2 últimos dias a pedalar pela Mongólia e Moral da História

Ao fim da manhã do dia seguinte, partimos, já depois de termos andado a cavalo e tirado fotografias com toda a família. Pedalámos em silêncio durante algum tempo, a pensar nos bons momentos que tínhamos passados com aquela gente… DSC07997

DSC_0386 Segundo as nossas previsões teríamos dois dias ainda a pedalar pela frente, de forma a fechar o círculo a que nos tínhamos proposto fazer no parque Terelj, para voltar a Ulan Bator de bicicleta, sem ter que pedir boleia!  Não estávamos limitados pelo tempo, já que não tínhamos nenhum bilhete de avião ou comboio comprado para sair da Mongólia, mas o meu visto da Rússia entrava em vigor brevemente, e tinha ainda que atravessar todo esse pais de Transiberiano de forma a estar em Varsóvia para apanhar um voo de volta para Portugal dentro dum mês! O objectivo para este terceiro dia seria visitar a enorme estátua de Genghis Kahn, supostamente a maior estátua do mundo dum homem a cavalo, que também albergava um museu do senhor.

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O terreno agora era bastante mais suave, e pedalámos tranquilamente pelos vales do Terelj, sempre acompanhados de manadas de bovinos e de cavalos, que de vez em quando bloqueavam mesmo a estrada e precisavam duns berros para saírem do caminho.

Esta era ja o terceiro dia a pedalar, in the wild, sem ter acesso a uma verdadeira casa de banho…tínhamos tentado nos lavar o melhor possível em bacias de água, e fazer as nossas necessidades à maneira local…

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DSC07972 A meio da tarde chegámos à estátua de Genhis Kahn e ficámos admirados com o seu tamanho enorme! Acho que nos fez impressão sobretudo por, depois de dias a pedalar na natureza, já não estarmos habituados a este tipo de construções, ainda para mais um mamarracho daqueles no meio do nada! Por outro lado, parecia-me bem que uma figura histórica como o Genghis Kahn, o bárbaro que pôs a Mongólia no mapa e que criou o segundo maior império de todos os tempos (só atrás do Britânico) merece-se este tipo de homenagem. Aproveitámos para descansar e subir à estátua, como qualquer bom turista! E como o mundo é uma ervilha, reencontrámos o húngaro que nos tinha dado boleia no primeiro dia para o Parque Terelj, já que era exactamente aqui que trabalhava a plantar árvores à volta da estátua!

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Começava a ficar noite e ainda tínhamos de encontrar um sítio para dormir…Por estarmos na parte mais baixa do vale, o terreno ficou cada vez mais pantanoso, e a chuva forte que tinha começado a cair não ajudava! Por sorte, lá no meio do lusco fusco, encontrámos um ger, com um casal de idosos e todos os seus netos. Ao princípio estavam um pouco receosos de nos acolher, talvez por se sentirem responsáveis pelos pequenos, mas a chuva  e a hospitalidade natural mongol ajudaram-nos e depressa nos convidaram a entrar.

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Passado algum tempo, o filho chegou de carro, vindo de Ulan Bator e juntou-se ao jantar. Como falava muitíssimo bem inglês, tivemos oportunidade de lhe falar das nossas aventuras, e de aprender mais acerca dos costumes mongóis e da situação actual do país, que segundo ele era de uma democracia duvidosa, com acusações de corrupção entre os vários partidos, já que havia muito dinheiro a entrar no país devido à enorme riqueza mineira do país.

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A noite foi passada no interior do ger, e a determinado momento vi um tabuleiro de xadrez e propus ao avô de jogar uma partida-big mistake! Toda a família entrou em extâse e havia já dinheiro na mesa para apostar no velhote!!Claramente tinha escolhido um adversário temível, e eu, que apenas conheço o movimento das peças, ao fim de 4 ou 5 jogadas dei-me como vencido- Ainda bem que não apostei nada!!Mongólia 1-Portugal 0!

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O dia seguinte amanheceu com céu cinzento e chuva, não estando convidativo para grandes passeios… Mas ainda tínhamos de fazer o último esforço para chegar a Ulan Bator. Tirámos as fotos da praxe com a família toda e partimos para pedalar os últimos km daquela aventura.

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Quando chegámos a Ulan Bator, a meio da tarde, o sol já tinha aparecido de novo, para nos dar as boas vindas de volta à civilização. Sentíamos uma sensação de desafio superado, satisfeitos com nós próprios e pensando como a nossa passagem pela Mongólia teria sido tão menos rica se não tivéssemos passado estes dias no Terelj. Pedalámos os últimos metros que faltavam para entregar as bicicletas em amena cavaqueira, já a sonhar com o bom duche quente o grande hambúrguer e as cervejas  (tínhamos tido a nossa dose de comidam mongol!) a que teríamos direito essa noite!

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Moral da história?

1) Vão à Mongólia o mais rapidamente possível. Como viram é um país lindíssimo, com pessoas super hospitaleiros e costumes tão diferentes dos nossos. É ainda um sítio que em grande parte e por enquanto está resguardado do progresso desenfreado e poderão ver um modo de vida que, com poucas alterações, subsiste desde há séculos. Esta situação vai rapidamente mudar, devido ao influxo de dinheiro que chega ao país via companhias mineiras.

2) Sempre que puderem saiam da bolha de turista que muitas vezes levamos conosco quando viajamos e interajam com os locais. E não me estou a referir às interacções promovidas pelas agências de viagens, onde sim, falamos e ficamos em casa de pessoas locais, mas assim que sairmos entram outros turistas, sendo essas pessoas, no fim, mais uma parte na cadeia alimentar do turismo. Saiam da vossa zona de conforto, falem com pessoas, façam couch surfing e não tenham medo da aventura e de arriscar um pouco- porque se as coisas correrem mal, é aí que o melhor lado humano se revela e onde vamos encontrar a hospitalidade e a bondade das pessoas. E isto não é só na Mongólia. É em todo a parte!

Boas aventuras!

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