Fisioterapia Tailandesa (ou como descobri que sou um menino!)

 

Nota- o autor escreveu parte deste artigo durante um processo de fisioterapia doloroso. A sua percepção da realidade foi certamente alterada.

 

Quem já teve o “prazer’ de experienciar uma massagem tailandesa, sabe bem que por detrás do rosto simpático desta gente thai, esconde-se um lado perverso e sádico! Se bem que a palavra massagem desperte em nós sensações imediatas de prazer e de relaxamento, as melhores palavras para descrever uma massagem tailandesa sejam talvez: dor e quanto tempo falta! A César o que é de César: a melhor parte da massagem tailandesa é quando acaba, não só pelo fim da tortura mas porque o efeito positivo de todos aqueles estiramentos e endireitamentos se faz finalmente sentir!

Talvez esta experiencia anterior com massagens tailandesas me tivesse preparado para as sessões de fisioterapia aqui em Bangkok, depois do que se passou no Vietname. Mas não.

Pelo contrário. O ar moderno, calmo e limpo da clínica, cheio de fisioterapeutas simpáticas e sempre as risotas quando tentavam praticar as poucas palavras de inglês que sabiam, fez-me pensar que o mês de fisioterapia que a medica me subscreveu seria agradável- até porque as minhas memorias de fisioterapia em Portugal, durante a minha algo curta ( mas gloriosa, cof cof!:) carreira de rugby eram de paninhos quentes, massagens gentis e máquinas de ultra sons inofensivas, que davam mesmo para bater uma sonecas! ( a nao ser quando nosso massagista, Gamboa ( tb conhecido por garroteiro) num dia de pior humor pusesse uns paninhos quentes de mais ou um ultra som um bocado mais desregulado!)

Quão enganado estava eu…. Deveria ter prestado mais atenção a uma das frases de motivação que decorava a sala de espera. Agora sei bem que não foi posta lá ao acaso:

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O que tem então a Fisioterapia Tailandesa de tão diferente?

 

Bom, toda a filosofia da fisioterapia tailandesa poderia assentar nos princípios de ” Os fins justificam os meios” e ” No pain no Gain”. O que quer isto dizer na prática? Quer dizer que para a medicina tailandesa, (ou nesta clínica)  a dor é um efeito colateral aceitável do tratamento médico para se conseguir chegar ao objectivo final, a cura. No meu caso específico, por exemplo, o tratamento prescrito (para além de uma parte “agradável” em que estamos ligados a uma máquina que nos estica a coluna, ao nível da anca e do pescoço, tal e qual um daqueles instrumentos de tortura medieval), consiste em 1) choques eléctricos para amolecer o tecido muscular, (Esqueçam a trepidação quase agradável das clinicas ocidentais. Estamos a falar de choques ao nível daqueles que sentimos quando metemos o dedo num sítio eléctrico que não devemos!) seguido de 2) uma massagem vigorosa ao longo da coluna, para a meter no sítio certo aproveitando os tecidos musculares já maleáveis de tanto choque eléctrico. E estamos a falar de TODA a coluna, quer haja hernia ou não. E isto, todos os dias, dia sim dia sim.

 

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Todo este tratamento é completamente contrário a certas crenças da medicina ocidental como por exemplo todo o tratamento que causa dor é contraprodutivo, porque resulta no enregecimento muscular e portanto maior dificuldade de curar as causas da dor, e que deve haver intervalo entre as sessões para dar tempo ao corpo de descansar e de absorver o tratamento dado!  (peço desde já desculpa a qualquer leitor com mais conhecimentos médicos que eu (o quer quer dizer quase todos vocês), mas isto é um artigo de opinião, baseado na minha percepção, e nas  poucas noções médicas que me fui apercebendo ao longo das minhas visitas aos gabinete de fisioterapia, ortopoedia, osteopatia, bruxos e endireitas, durante a minha curta vida (e não um artigo para a Associação de Ortopedia Lusófona- por favor deixem as vossas críticas, revolta e injúrias nos comentárias. Prometo responder na mesma moeda.)

Podem então imaginar a minha surpresa quando, na primeira sessão de fisioterapia, fui passando de estação de tortura em estação de tortura, numa introdução abrupta aos conceitos da medicina tailandesa,numa escala crescente de dor, estupefacto, na minha inocência, que aquelas raparigas com um ar gentil e doce poderiam causar tanta dor a alguém, e que estava numa clínica de Medecina e não em Abu Grabi!

 

 E foi assim que descobri que sou um menino. 

 

O meu único consolo é saber que não sou o único. Todos nós, no ocidente não temos esta relação com a dor, de aceitá-la como parte do tratamento. (excepto tu, o leitor que tem a mania que é um duro! Convido-te a vires aqui a Tailândia para saberes o que é bom para a tosse!)

 

A questão é? Porque é que aceito me submeter a este tratamento, que em muitos países poderia ser considerado como uma violação aos Direitos dos Homens? Várias razões

 

1) Bom, a primeira razão é que não é facil encontrar bons contactos médicos,  num país estrangeiro, ainda para mais quando estamos com pressa (sim, porque estamos a viajar à volta do mundo, não estou em casa de baixa médica a ver Game of Thrones o dia todo!). Este contacto foi dado por uma amiga tailandesa, em que tenho toda a confiança (se bem que tenha que vou ter uma conversinha com ela se este tratamento doloroso nao resultar!).

 

2) A médica, as instalações e todo o staff deixaram-nos uma óptima impressão. E todos nós sabemos como a parte da percepção e todo o lado psicológico é importante.

 

3) Todos os pacientes tailandeses que sabem falar inglês, falam conosco e perguntam como descobrimos aquela clínica, porque nunca há estrangeiros, apesar de ser uma das melhores clínicas de Bangkok, e que tivémos muita sorte em tê-la descoberto (entre eles, dois pacientes que evitaram cirurgia através de tratamento na clínica!)

4) E acima de tudo, é uma questão de crença. Acredito no valor da medicina oriental. Acredito que há certos conceitos e abordagens que a medicina ocidental não domina totalmente. Veja-se o exemplo do valor reconhecido da acumpultura, que apesar de já ser aceite pelos médicos ocidentais não faz parte ainda do tratamento tradicional.

5) E claro, uma questão de alternativa. Qual é a alternativa? Interromper a viagem e voltar a Portugal e França para recuperar para prosseguir viagem? Para além dos custos financeiros envolvidos (bilhete de avião mais tratamento que na Europa, especialmente em França custa muito mais caro) há o sentimento de derrota, de voltar para casa antes do previsto que não queremos. Preferimos aproveitar o lado positivo da experiência e viver um mês em Bangkok, e então prosseguir viagem!

E voilá! Agora é serrar os dentes, aguentar a terapia que nem um homenzinho, e esperar pelos resultados positivos que já se fazem sentir, pouco a pouco!!

E vocês? Já tiveram experiências com medicinas alternativas como a tailandesa? Ou tratamentos dolorosos? Contem em baixo nos comentários!

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