Este não é um blog de viagens, é um blog à vida.

 

Numa viagem à volta ao mundo, durante um ano, há altos e baixos, tal como em casa. Pensava eu que o ponto mais baixo já tinha passado, em Hanói. Mas não, chegou hoje.

Não sei o que vocês acham do nome do blog, 125azul, mas adoro. Passado mais de um ano de ter criado o blog, estou contente de não ter utilizado as palavras clichés ou jogos de palavras relativas a viagens, como é normal. Há um significado mais profundo no nome do 125azul, o mesmo que a canção tenta transmitir. Um significado de

(…) Foi sem mais nem menos que me deu para abalar para destino nenhum.

(…)viva o espaço que me fica pela frente e não me deixa recuar, sem paredes, sem ter portas nem janelas nem muros para derrubar

(…) E com o ar na cara, vou sentindo desafios que nunca ninguém sentiu,

Esta é a filosofia do blog, já que grande parte das viagens aqui relatadas foram feitas em períodos da minha vida que pus tudo o resto on hold, e parti, para aproveitar a vida, para conhecer o mundo, porque nunca se sabe o dia de amanhã. Como dizem os Rádio Macau, “amanhã, sabes bem, é sempre longe de mais” e pode não chegar.

Este é o espírito do blog e o espírito da canção do 125azul, mostra também porque esta filosofia é importante , já que às vezes a vida não corre como esperamos:

(…) Foi sem mais nem menos
Que partiu sem destino nenhum
Foi com esperança sem ligar muita importância àquilo que a vida quer
Foi com força acabar por se encontrar naquilo que ninguém quer

 

Hoje foi o pior dia da nossa viagem e talvez o dia mais triste da minha curta vida, porque soube que o meu primo Pedro, com quem cresci,  se suicidou, em São Paulo, onde morava. Daqui a 4 dias iria vê-lo, a ele e ao resto da minha família brasileira, que iria encontrar pela primeira vez, em ambiente de festa. Agora será um momento de dor e de pesar.

Por motivos que aqui não interessa contar, a vida trouxe-lhe dificuldades e desafios que, em desespêro, pensou não conseguir superar, tomando a decisão mais difícil de todas. Para trás ficam namorada, família e amigos estupefactos, revoltados, destroçados, com um sentimento de impotência, e, pelo menos da minha parte, a eterna dúvida, será que poderia ter feito algo? Partir tão cedo é sempre horrível, destroçante, mas partir assim, é ainda pior, porque deixa-nos um sentimento que talvez poderíamos ter ajudado…Mas não, é um engano. É tão dificil alguém detectar que estamos a chegar a esse ponto de ruptura, porque os sintomas não diferem muitas vezes de alguém que está a apenas triste mas vai recuperar… a solução deste problema, tal como na maioria dos problemas deste mundo, está na educação. Ensinam as crianças na escola a lavar os dentes, mas não ensina os adolescentes ou os estudantes universitários a reconhecer os sintomas duma depressão e a procurar ajuda, uma situação cada vez mais comum com as adversidades da vida, sejam profissionais, familiares ou amorosas…situação que é perigosísima para  a pessoa ou mesmo para outras pessoas, comprovado pelo desastre da GermanWings.

Falo com a voz da experiência. Aqui há alguns anos, saído da faculdade, num novo país, novo emprego, longe de família e amigos, encontrei-me numa situação menos fácil e passei por momentos bastante difíceis que, felizmente, recuperei com ajuda da família, não sem passar por um período bastante mau. É algo de que não gosto de falar, que pouca gente sabe, mas que acontece aos melhores, postos em determinadas situações, carregando nos botões errados. Foi o que aconteceu ao meu primo Pedro.

E ele era dos melhores. Nunca conheci um tipo tão inteligente como ele: aos 5 anos sabia todas as capitais do mundo e aos 7, e eu com 10 perguntava-me o que é eu achava da situação política em Angola. Benfiquista como há poucos, estudante brilhante da Católica e do HEC em Paris, trabalhava no mundo da finança de S. Paulo. Tinha um futuro brilhante à frente dele. Sorriso sincero e contagiante, humilde. A boa pessoa.

Vou sentir falta dele.  Já sinto.

Mas como o Represas diz na 125azul:

(…) Mas Deus leva os que ama
Só Deus tem os que mais ama…

 

Moral da história?

Aproveitem a vida como se não houvesse amanhã, estejam com a vossa família e amigos o máximo que puderem porque não sabemos o que pode acontecer amanhã. Se tiverem um amigo ou um familiar em baixo de forma, estejam lá para ele. Falem deste caso. Sei bem que a minha família esteve lá para o meu primo, mas quando estamos fragilizados e não nos apercebemos o que se está a passar conosco, a determinada altura chegamos a um ponto que já ninguém nos ajuda, de onde não voltamos e o pior pode acontecer. Aconteceu mesmo.

Estás numa situação frágil? Fala com os teus pais, irmãos, família, amigos. Estarão SEMPRE lá para ti. Se não, utiliza o o serviço da SOS Voz Amiga.

Ao Pedro, certo que estás num sítio melhor agora, ,estou a beber uma garrafa do melhor vinho Chileno que encontrei aqui na Foz de Iguaçu, à tua memória!

Abraço Primão!

 

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