A Palavra a quem vive lá: Etiópia

 

Nesta edição do “A palavra a” vamos viajar a África, a um país diferente de todos os outros no continente, que durante séculos foi alvo do imaginário dos Portugueses sob a forma das terras do Prestes João
 das Índias. A Filipa está  a morar na capital da Etiópia, em Adis Abeba, a sede da União Africana, e vai-nos contar um pouco da sua experiência de como é viver por lá e algumas dicas para quem pensa visitar este país
 
União Africana

União Africana

Como foste parar à Etiópia?
Estou a trabalhar cá, na Embaixada de Portugal, desde Julho de 2013.
Quais eram as tuas expectativas antes de chegar? E primeiras impressões quando chegaste?
Expectativas… encontrar muita pobreza, mas um país bonito e uma capital cheia de estrangeiros, com uma vida cosmopolita. Quando cheguei fui surpreendida pela poluição e pelo frio (Adis Abeba está a 2400m de altitude, faz frio à noite e o corpo ressente-se do cansaço pulmonar). Cheguei na época das chuvas, o céu estava cinzento, chove mesmo todos os dias e há lama por todo o lado.
Mercado Axum

Mercado Axum

 
E agora, que podes dizer da Etiópia? 
Viver aqui é bom, a comunidade internacional é muito acolhedora e há muitos serviços. Gosto muito de poder ir ao cinema, jantar fora, a bares, a eventos (Oktoberfest! Yay!). Contrariamente a todas as piadas possíveis, a comida é bastante boa por aqui e o café… nada bate o café etíope. Apenas há que habituar à ausência de um bom expresso, nunca saem bem, deve ser um problema de pressão por causa da elevada altitude.
Mas não tenho paciência para correr 3 supermercados para concluir as minhas compras, é chato faltar a luz e a água e detesto regatear, o que é obrigatório porque o primeiro preço é sempre o de ferenji (estrangeiro), e nem todos somos americanos ricos.
 
Que costumas fazer depois do trabalho e aos fins de semana?
Por causa do meu trabalho, é comum ter as noites ocupadas, com eventos a que tenho obrigatoriamente de ir. Mas costumo jantar com outros estrangeiros e ir ao cinema (o bilhete custa 2€, mas as pipocas não são grande coisa). Também tento ir ao ginásio… mas… preguiça!
Ao fim de semana, tento sempre dar uns passeios pela cidade, embora não seja muito amigável para peões por causa do trânsito, ausência de passeios e poluição. E durmo muito mais do que em Portugal, efeito da altitude a que ainda não estou habituada, mesmo passados 9 meses.
Como são os Etíopes? 
Simpáticos e amigáveis, “doces” como costumo ouvir. As crianças gritam ferenji na rua e querem vir cumprimentar a menina branca. Embora haja muita gente a pedir na rua, nomeadamente aos estrangeiros, os etíopes são muito orgulhosos, particularmente por nunca terem sido colonizados e terem uma história ancestral, o que se percebe nalguns contactos, nomeadamente profissionais.
Lalibela

Lalibela

 
Coisas específicas/engraçadas acerca da cultura ou das pessoas nesse país?
A cultura etíope está muito ligada à religião: o cristianismo ortodoxo etíope. As festas religiosas são muito participadas e vê-se muita gente na igreja, o que é muito interessante quando se vem de um continente onde a expressão religiosa está a diminuir muito. Um pormenor engraçado sobre os etíopes: a regra aqui é “smile & greet, smile & greet”, sempre. Mesmo quando estamos atrasados, pois a concepção de tempo é um bocadinho diferente…. tudo é feito com calma e uma reunião às 10h não é de certeza às 10h. Também é impensável levantar a voz numa loja, a maior parte dos empregados ficará sem capacidade de reacção face ao “mal-educado” branco.
 
Imagina que amigos teus te vão visitar e aproveitar para conhecer o país. Que dicas darias para:
Como Voar para ai? 
Voar de Portugal custa entreo 550 a 800 euros, consoante a altura do ano, quando se compra e por onde se vem. Não há voos directos, mas as escalas possíveis são Paris, Frankfurt, Roma, Istambul ou Dubai, entre outras. Para lá de procurar no skyscanner ou momondo, sugiro ir directamente aos sites das companhias aéreas e contactar também os balcões e agências. Consta que os voos da Ethiopian comprados online são mais caros do que ao balcão ou por uma agência de viagens, mas às vezes comparo e a situação parece estar a mudar.
Gondar

Gondar

 
Melhor altura para ir?
A altura para não vir é de meados de Junho ao final de Setembro, durante a longa época das chuvas, dado que algumas estradas ficam intransitáveis e o tempo faz lembrar os Novembros chuvosos em Portugal (mas mais frios à noite). Fora isso o clima é muito bom, uma longa e solarenga primavera, durante o dia não passa dos 26ºC na maior parte do país, mas à noite desce para cerca de 10 ou menos. Algumas zonas do país são mais quentes, com as temperaturas a passar os 30/35ºC.
 
 Melhor maneira de andar por aí?

As melhores opções são os autocarros de ligação entre principais cidades (a reservar com antecedência, porque não há muitos e esgotam – não tenho noção dos preços, mas deve ser bem acessível, pois destinam-se à população local) ou o aluguer de um carro (todo-terreno de preferência) para maior liberdade. É aconselhável (e mais fácil) alugar com motorista, pois as estradas são más e os peões gostam de atravessá-las de repente, inclusive à noite. Os portadores de carta de condução portuguesa apenas podem conduzir com ela durante os primeiros 10 dias em que estão no país.

Há bastantes voos internos, mas os preços aumentaram muito agora, rondando cerca de 100€ para qualquer segmento de 1 hora. A opção principal dos turistas parece ser voar de Adis Abeba até ao extremo norte e aí ter um carro à espera para fazer depois o percurso até ao sul. Também ajuda ter o motorista a fazer de guia/intérprete, pois muita gente não fala inglês.
Dentro de Adis Abeba há autocarros urbanos grandes (tipo os que se encontram na Europa), que se desaconselham por estarem sempre lotados. Depois há minibus, como noutras cidades africanas, que são muito baratos (com 30 cêntimos fazem-se uns 10km, mas atenção aos carteiristas) e táxis, onde é preciso regatear. Ambos estão pintados de azul e branco. Os minibus são chamados “blue donkey” e os Lada, que servem de táxi, ganharam a alcunha de “blue virus”.

Lalibela

Lalibela

 
Que tipos de alojamento se encontra? 
Ora bem…. Há alojamento tipo hostel “ranhoso” a preços baratos (cerca de 25€/noite para 2 pessoas) e hotéis do género 2/3 estrelas a partir dos 35€, dependendo do local e época do ano. Também haverá locais mais baratos, mas serão bordéis disfarçados de pensões e é meu dever profissional desencorajar-vos de aí pernoitar. Quanto a acampar, apenas sei que é complexo, dado não haver parques preparados.
Em Adis Abeba os preços são mais caros, mas encontra-se alojamento simpático a partir dos 45€, mas obviamente não no centro.
 
Diz-nos alguns preços para ter uma ideia do custo de vida?
O custo de vida é bastante barato, apenas é preciso atenção à qualidade. A refeição mais barata possível num sítio decente, com higiene, ficará a cerca de 3€ por pessoa. Num restaurante normal subirá para os 4/5€ e em locais de luxo passa obviamente os 10€. Um café custa entre 8 a 12 cêntimos e uma cerveja menos de 20 cêntimos – há boa produção local, com apoio checo e é de experimentar as várias marcas.
 
Qual  o orçamento diário para viajar na Etiópia? Qual o mínimo que pensas que  se pode fazer?
Como moro aqui, e faço comida em casa, não sou propriamente boa pessoa para responder a isto… mas imagino que uma média de 40€/dia dê para duas pessoas comerem e dormir, sem viagens incluídas.
 
Quantos dias aconselharias a quem vem visitar a Etiópia no mínimo? E idealmente?
No mínimo 4 dias, considerando viagens e 1 para Adis Abeba, 1 para Lalibela e 1 para Gondar. Estes dois últimos são Património da Humanidade e completamente obrigatórios. Idealmente 2 semanas, para haver tempo para visitar os 9 locais Património da Humanidade do país e passear pelas belas paisagens naturais.
 
Qual o itinerário que aconselharias a alguém para visitar a Etiópia? O que mais gostaste desses sítios? O que falta ver fora desse itinerário? 
Obrigatórios são Lalibela e Gondar (onde já estive e adorei), Axum (também visitei, não me convenceu muito, talvez porque fui em Agosto e apanhei uma chuvada torrencial a meio da tarde), Bahir Dar e Harar (onde conto ir quando tiver amigos de visita). Também são aconselháveis as montanhas Simien e o lago Tana. O melhor itinerário dependerá do tempo e dinheiro, consoante a escolha por ligações de avião ou por terra. Começar do norte e descer até Adis Abeba é uma das boas opções.
 
Que pratos/bebidas típicas há por aí?
A principal comida etíope é a injera, uma espécie de pão/panqueca gigante feito de tef, um cereal endógeno que não tem gluten. Pega-se em bocados de injera à mão e usa-se para ir comendo as carnes, legumes, molhos preparados à parte. Eu recomendo comer Tibs, carne partida em bocados e grelhada num carvoeiro. Come-se também carne crua, seja em naco do qual se cortam bifinhos na mesa (ainda não tive coragem!), seja em carne picada que passa muito brevemente por uma frigideira, o chamado kitfo.
Os períodos de jejum são muito longos na Etiópia, pelo que é um local óptimo para vegetarianos/vegans. A bebida por excelência chama-se tej, é hidromel com ar de sumo de laranja, mas grande teor alcoólico e sabor intenso.
Tibs

Tibs

 
Recomendas algum restaurante/Coffee-shop/bar?
Restaurante típico aconselho o Yod Abyssinia, tem espectáculo cultural a acompanhar o jantar, músicas e danças da Etiópia. A cadeia de cafés mais conhecida é o Kaldi’s (que seria o nome do pastor que descobriu o café), e não há como enganar: o logo faz lembrar o Starbucks. Há também muitas opções de comida ocidental, principalmente italiana (o melhor é o Belvedere, garantem os colegas italianos) e asiática (é mais caro, mas o restaurante indiano do Hotel Dreamliner é um sonho!).
 
A noite louca da Etiópia? Muita party?
Há sim uma noite louca da Etiópia, mas acaba às 2 da manhã. Música latina é no Jams e no Bailamos, e o grande spot da cidade é o Illusions. Os DJs costumam trabalhar por fora, por isso a melhor festa será provavelmente em casa de alguém… especialmente se com o DJ Addisu ou a DJ Yemmi.
Souvenirs/Coisas interessantes a comprar?
Lenços, cachecóis, echarpes, tecidas à mão com algodão etíope e lindas. Levar café para os amigos é obrigatório e barato, basta passar em qualquer supermercado. Uma camisola da selecção etíope custa uns 10€ (há que regatear!) e fará certamente um vistaço.
 
Actividades outdoor para fazer na Etiópia? Que há para fazer?
Há muitas montanhas, por isso o trekking é uma grande opção. Também se pode fazer safaris no sul. Não há é onde nadar a não ser nas piscinas dos hotéis da capital, os lagos são desaconselháveis. Convém lembrar que grande parte das vezes a altitude será elevada, pelo que o organismo se cansará mais.
Montanhas Simien Cédito:  Michael Poliza

Montanhas Simien Crédito: Michael Poliza

Resumindo e concluindo, a Etiópia é boa para….. 
É boa para quem quer descobrir uma África diferente, cheia de história e vestígios de uma civilização e religião milenar!

Comments

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2 Responses to “A Palavra a quem vive lá: Etiópia”

  1. Julio Cerne says:

    Excelente! Gostaria de saber se a Filipa acha possivel planear uam vida a longo prazo na Etiopia, com familia, filhos. como e a educacao e servicos de saude?

    Ja agora o Etiopes foram colonizados de 1936-47 pela Italia. (Talvez dai os bons restaurante italianos)

  2. Julio Cerne says:

    *quis dizer 1936-41. Obrigado

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